Hipnose: Escola Russa

Hipnose: Escola Russa

Antonio A. Carreiro, Dr. Sc.

A partir
dos estudos do russo Iwan Petrowitch Pavlov (1849-1936) nascido em Riaza, a
hipnose ganhou novos conceitos. Em 1870 Pavlov ingressou como estudante na
Universidade de Petrogrado (hoje, São Petersburgo), aos 41 anos, ganhou a
cátedra de professor de farmacologia e, posteriormente, de fisiologia. Sua vida
dedicada à pesquisa acadêmica inicia uma fase nova para a hipnose que a
interpreta como um fenômeno neurofisiológico. Na hipnose é conhecido como o
criador da “Escola Russa”.

A
explicação de Pavlov enquadra a hipnose na estrutura físico-orgânico-cerebral e
representa a tentativa de uma visão puramente científica, baseada no critério
da observação de dados que podem ser medidos e comprovados. Assim, a hipnose
passa a ser exclusivamente analisada em bases materiais, fisiológicas e
orgânicas. Neste caso, palavras como Transe, Sugestão, Sugestibilidade,
Sensibilidade, Imaginação, Emoções, Desejos e Sentimentos não são termos
mensuráveis, devem ser evitados ou são substituídos por termos mais adequados
com a linguagem cientifica. Por exemplo, no lugar de “transe”, prefere “estado
alterado de consciência”, no lugar de hipnose aparece o termo
“Neurolinguística”.

Para esta
escola, a atividade psíquica nada mais é do que a atividade do cérebro e, com
esse argumento, contesta também as hipóteses que sustentam a teoria
psicanalítica. Seus seguidores consideram que os psicanalistas não têm prova
científica do inconsciente humano para afirmá-lo como verdadeiro. Por sua vez,
os freudianos defendem-se ao argumentar que os resultados práticos da cura dos
sintomas neuróticos constituem uma prova suficiente da veracidade dos seus
métodos. O embate entre a escola russa e as demais escolas sempre gerou muita
polêmica, mas permitiu a possibilidade de a hipnose ser admitida como um
fenômeno científico.

A hipnose
vista pela escola russa é simplesmente associada ao Reflexo Condicionado e, por
isso, seus adeptos defendem que é possível hipnotizar animais não racionais.
Outras escolas sustentam que “condicionamento” é bem diferente de
“sugestionamento” e que irracionais são condicionáveis e não sugestionáveis. De
fato, aves, répteis, batráquios, entre outros animais, são facilmente postos em
catalepsia por meio de manobras físicas de excitação sensorial. A escola russa
considera que esse processo não difere daquele produzido no mesmerismo, mas a
hipnose baseada apenas na sugestão verbal (escola de Nancy) não depende de
toques físicos, que podem ser entendidos como estímulos para reflexos
neurofisiológicos ou resultado de ações magnéticas através de toques físicos
(escola mesmerista).

Embora
tenha semelhanças entre os resultados da escola russa e os praticados pelas
escolas ortodoxas da hipnose, as explicações são absolutamente diferentes.
Segundo Bué (1945), Lafontaine acreditava que a ação do magnetismo podia agir
além do Ser Humano, também sobre animais e vegetais. Sobre isso escreveu no seu
livro A arte de magnetizar como teria magnetizado uma série de animais. Bué,
fundamentado nos aforismos de Mesmer, relata como pela ação magnética foram
induzidos animais ao estado cataléptico. Diz ainda como esta ação também pode
agir sobre vegetais, “curando-os quando estão doentes ou apressando-lhes o
crescimento e a florescência”. Para a escola russa, o estado cataléptico em
amimais é produzido pelos reflexos condicionados.

A hipnose
baseada nos princípios do condicionamento, teve por subsídio o famoso trabalho
de Pavlov sobre a fisiologia no estado hipnótico do cão. Das suas experiências
com cães se deve também a doutrina da inibição da excitação e inibição
cortical, dois processos que, segundo a escola russa, explicam a atividade
nervosa superior dos animais e dos seres humanos. Mas Weissmann (1958) discorda
afirmando que os estímulos que provocam uma ou outra dessas duas atividades são
relativamente fáceis de controlar em animais, tornando-se complicados no Ser
Humano.

Pavlov
conduzia os famosos experimentos com cães e demonstrava como os reflexos
condicionados se desenvolviam. Tocava-se uma campainha sempre que o cão era
alimentado e com a constante repetição disso os cães salivavam quando a
campainha soava, embora não recebessem o alimento. Tinham aprendido a associar
o som da campainha ao alimento e, então, a campainha estimulava o fluxo da
saliva. A salivação era o reflexo condicionado que fora estabelecido (Pavlov,
1976).

Os
seguidores da escola de Nancy, opositores da escola russa, contestam afirmando
que pessoas são hipnotizáveis e animais são condicionáveis. Afirmam que, antes
de ser um fenômeno fisiológico cortical, a hipnose é um fenômeno extremamente
racional. O hipnotismo humano difere, portanto, dos simples condicionamentos, é
baseado mais nas leis da imaginação do que no fisiologismo. Weissmann (1958),
aliado com os autores contrários à tese da escola russa, diz que diferentemente
do Ser Humano, o cão satisfeito em sua necessidade nada questiona, age apenas
pelo seu instinto, sem a emoção que é privativa do Ser Humano. Para levar um
animal ao condicionamento não é necessário apelar para a atividade imaginativa.
Isso diferencia bem o efeito hipnótico do condicionamento:

Uma cadelinha pode ser
condicionada para que ao som de uma campainha ingira alimentos em quantidade
determinada, não há perigo de, no momento assinalado, passar-lhe pela cabeça
algum propósito mais importante e mais excitante do que comer. Em resumo, para
hipnotizá-la basta um fisiólogo reflexologista. Quanto ao Ser Humano, não
dispensa a colaboração do hipnotista para a sua complexa interpretação (WEISSMANN,
1958).

Sem
perigo de cair no excesso das interpretações, mas apenas com a preocupação de
analisar por todos os ângulos através dos quais se tenta explicar o hipnotismo,
devem ser vistos mais detalhes do que diz a tese de Pavlov, quando se refere à
hipnose como um fenômeno análogo ao sono. Um sono parcial produzido pela
irradiação progressiva de uma inibição, a partir de um foco excitatório ativado
no córtex, foco este que seria o estímulo hipnótico. Pavlov (1923) chamou a
este fenômeno de indução recíproca e a este foco excitatório, de ponto de
vigil, zona de transferência, semelhante ao rapport. Mas foi Mesmer quem
primeiro descreveu o rapport, um conceito francês que quer dizer “hannonia” ou
“conexão”. Esta palavra descrever o momento no qual o hipnotista conquista o
interesse e a cooperação do hipnotizado.

Pavlov
explica o processo hipnótico a partir da tese de que o córtex é o órgão central
de todas as reações orgânicas. E, de modo indireto, ele superintende as funções
viscerais, equilibrando o sistema nervoso central e o neurovegetativo. Assim,
cada órgão do corpo humano é controlado pelo córtex que estabelece o contato
entre o meio externo e o interno, através de excitações emanadas de cada órgão.
O córtex cerebral é a central diretora que pode ser utilizada pela hipnose com
o objetivo de comandar movimentos musculares, sensações fisiológicas (frio,
calor, dor ou sua supressão) ou psíquicas (alegria, entusiasmo, tristeza, etc).
Diz ainda que o condicionamento da camada cortical pode ser tão forte que um
indivíduo, mesmo com a perna amputada poderá sentir dores como se a tivesse.
Isto ocorre por causa de estímulos que sentia antes da amputação. Uma sugestão
hipnótica pode removê-los com relativa facilidade. Essas impressões têm o nome
de reflexos condicionados que são inatos a cada espécie animal.

Os
pavlovianos consideram que são poucos os reflexos incondicionados em comparação
com os condicionados, que são indispensáveis aos problemas de adaptação e
sobrevivência da espécie. Pode-se agir pela hipnose através do estímulo do
córtex, transmitindo-se então os comandos através do condicionamento. E a
função terapêutica da hipnose seria possível através do descondicionamento dos
reflexos nocivos e o condicionamento de outros, para proporcionar benefícios ao
indivíduo. Durante o sono fisiológico, os condicionamentos podem permanecer
ativos em nosso córtex. Estes seriam como “pontos de vigília”, estabelecidos de
acordo com certos fins e a disposição para atender às necessidades de cada um.
Para fundamentar essa teoria, Weissmann (1958) citando J. B. Burza apresenta
como exemplo:

Mães com os filhos pequenos que
costumam dormir profundamente, mesmo que se batam portas ou façam barulhos
enquanto dormem, mas acordam imediatamente a um leve choro do bebê. Também é
comum, pessoas que não usam despertador e que necessitam de acordar a certa
hora da madrugada, o consigam mesmo que estejam cansadas. É uma espécie de
autossugestão hipnótica que o indivíduo dá a si próprio, quando ainda acordado,
e que é capaz de nos despertar na hora certa, por um sistema de cálculo de
tempo cerebral, cujo mecanismo a ciência ainda não consegue explicar. Da mesma
maneira a palavra (a voz) do hipnotizador penetra no cérebro do hipnotizado
através desse ponto de vigília, que é como se fosse uma luz acesa e cercada de
sombras dormentes (BURZA apud WEISSMANN, 1958).

Em 1950
foi realizado em Moscou o I Congresso Pavloviano, quando grandes contribuições
foram somadas as ideias de Pavlov, incluindo-se aí aplicações da hipnose na
medicina. Pode-se dizer que toda a teoria cortical, que alguns autores se
referem quando tratam da hipnose, sugiram deste famoso congresso. Disso também
deriva termos como sonoterapia, parto sem dor e NL – Neurolinguística.

É na
escola russa que aparece pela primeira vez, em 1941, o termo “Medicina
Psicossomática” e “Hipnose Clínica”, representando o estudo e aplicação da
hipnose exclusivamente na área da saúde. Ocorreu também a hipótese de que a
hipnose poderia condicionar ações e pensamentos, representando uma visão
próxima da teoria dos reflexos condicionados; um “condicionamento” através da
sugestão ou a análise do indivíduo e o seu recondicionamento a melhores formas
de comportamento (Rainville, 1997).

O esforço
da escola russa para caracterizar a hipnose como inserida nos padrões e na
linguagem científica, busca explicações para seus efeitos terapêuticos com
experimentos em laboratórios. Esta pratica começa com o uso de instrumentos da
década de 40 e 50, o ECG, chegando à atualidade fazendo uso de estudos
controlados, utilizando o arsenal moderno de recursos computadorizados como a
Tomografia pela Emissão de Pósitrons (PET), Ressonância Magnética Funcional
(RMf) e a Magnetoencefalografia (MEG). Este esforço teve como resultado a
aceitação do fenômeno por parte da classe médica que, antes disso, a
considerava como uma heresia científica, mentira ou simulação. É fato que a
concepção pavloviana sobre hipnose estabeleceu afinidades com muitos fatores
ordinários da fisiologia e, para seus seguidores, afastou dela inteiramente os
mistérios que a envolvia.

A escola
russa facilitou a aceitação de fatos físicos, orgânicos, como decorrentes de
processos emotivos; a cada dia é mais aceita a interação entre mente e corpo;
não é mais uma heresia médica dizer que relaxamento, crenças religiosas, transe
hipnótico e outros fatores podem afetar, até de forma inexplicável, sinais
vitais mensuráveis, como o funcionamento de órgãos do corpo humano, a pressão
arterial, os batimentos cardíacos, etc. O entendimento do processo do estresse
vem dessa mudança e, atualmente, seus efeitos psicossomáticos passam a
significar conteúdos de estudos acadêmicos regulares.

Na
tentativa de justificar a hipótese de que a hipnose é um resultado meramente
físico-orgânico-cerebral, os seguidores da escola russa associam os diferentes
níveis de transe com ondas cerebrais do tipo alfa, beta, gama, teta e delta.
Essas ondas são produzidas pela atividade eletroquímica do cérebro e podem ser
medidas por instrumento próprio. Sabe-se hoje que a frequência cerebral medida
em c/s – ciclos por segundo – é associada aos estados emocionais. Pessoas
estressadas possuem frequência de 21 ou mais c/s, em estado de vigília aparecem
às ondas Betas (13 a 20 c/s). Já em estado de relaxamento aparecem ondas Alfas
(9 a 12) e durante o transe leve, as ondas Tetas (4 a 8 c/s). Na hipnose
profunda, as ondas Deltas (1 a 3 c/s).

Para
demonstrar a relação do transe hipnótico e o estado fisiológico do cérebro, os
hipnotistas que aderem ao fisiologismo utilizam um instrumento, o “estimulador
de ondas cerebrais” BrainWave Stimulator é um aparelho preso a um óculos com
pequenas lâmpadas na parte interna e que piscam rente aos olhos produzindo um
estímulo luminoso estroboscópico, acompanhado de um par de fones que difundem
pulsos sonoros rítmicos ou sugestões específicas. Os óculos e os fones são
conectados a um pequeno circuito eletrônico, que alterna a frequência dos
ritmos luminosos de acordo com o som ou com a sugestão desejada, tipo relaxar,
memorizar e aprofundar o estado hipnótico. Acreditam que ao utilizar esse
instrumento, o cérebro adota o mesmo padrão de frequência emitido por ele e
correspondentes aos variados níveis de transe que se quer produzir no
hipnotizado. Essa prática é questionada quando se pergunta se é a frequência
luminosa que induz ou trata-se de mera sugestão indireta.

Embora
faça uso de termos da linguagem médica e do fisiologismo acadêmico, para muitos
estudiosos a explicação da escola russa não é contundente e não aceitam a
justificativa neurofisiológica para explicar a hipnose, afirmando que suas
conclusões parecem sofismática; inicia com afirmações comprovadas para inferir
conclusões pouco prováveis.

A teoria
da irradiação cortical para explicar o hipnotismo continuou forte até a década
de 1960. Por essa época, Volgyesi (1983) já havia proposto outra teoria
neurofisiológica para a hipnose, que evidenciava a participação de estruturas
subcorticais no fenômeno, ressaltando o papel do córtex frontal. Volgyesi não
aceitou a hipótese de Pavlov que afirma ser a irradiação cortical a única explicação
para o fenômeno hipnótico e propôs que o fenômeno seria devido a uma redução
temporária e reversível do fluxo sanguíneo em determinadas áreas do cérebro.
Essa teoria não recebeu muita repercussão devido à ascendência de outras ideias
sobre o assunto e, principalmente, por também não ser conclusiva.

Referencias:

  1. Pavlov I. Reflexos condicionados
    e inibições. RJ, Editora Zahar, 1976.
  2. Pavlov, I. The Identity of
    inhibition with sleep and hypnosis. N. Y. Science, n.17, p. 603-608, 1923.
  3. Pavlov I. The Identity of
    inhibition with sleep and hypnosis. N. Y. Science, n.17, p. 603-608, 1923.P.;
    Duncan, G. H.; Price, D. D.; Carrier, B. e Bushnell, M. C. Pain affect encoded
    in the human anterior cingulate but not somatosensory cortex. Science, nº277,
    p.968-971, 1997.
  4. Volgyesi, F. El alma lo es todo:
    Desde la demonologia hasta la hipnosis terapéutica.Barcelona, Noguer y Caral
    Editores, 1983.

Notas:

  1. Estresse significa aflição,
    mal-estar, perigo. O pioneiro na pesquisa foi Hans Selye que, em 1926,
    deparou-se com os sintomas. Hoje “estresse” é a denominação dada a um conjunto
    de reações orgânicas e psíquicas que o organismo emite quando é exposto a
    qualquer estímulo que o excite, irrite, amedronte ou o faça muito feliz.
    Funciona como um mecanismo de sobrevivência e adaptação, estimulando o
    organismo diante de uma experiência ou ambientes novos que causam pressões
    psicológicas. Na medida em que o cérebro interpreta estes fatores como ameaças
    à saúde, o corpo fica em estado de alerta geral (estressado), até que o fato
    passe ou o sujeito se adapte à nova situação (N. do A.).

a) O Texto foi extraído do Livro CARREIRO, A. A.  Hipnose: Mítica, Filosófica e Científica. Editora JM, 2014 – copyrigth © CIP, direitos protegidos. Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, do autor.



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